América Latina digital
Reestruturação financeira na América Latina: como o Nubank transformou o setor bancário de “privilégio de elite” em “serviço popular”
Nubank, com 114 milhões de clientes e um retorno sobre patrimônio líquido de 29%, está remodelando o cenário bancário da América Latina. Sua trajetória não diz respeito apenas à ascensão de uma empresa, mas também marca uma transformação profunda do sistema financeiro regional, da exclusão para a inclusão.
As fissuras do antigo sistema: alta concentração e exclusão financeira em larga escala
A América Latina tem cerca de 670 milhões de habitantes, mas, durante muito tempo, a banca tradicional atendeu apenas à parcela mais rica da população. A proporção de pessoas sem conta bancária na região varia muito de país para país, de 13% a 60%; no Brasil, quase 70% dos depósitos estão concentrados nos três maiores bancos. Esse sistema financeiro altamente concentrado exclui naturalmente pessoas de maior risco, baixa renda ou em situação de emprego informal — e a taxa de informalidade na América Latina é em média de 46,7%. O resultado é que centenas de milhões de pessoas não têm acesso a crédito, poupança e seguros, dependendo de agiotas não regulamentados, com taxas de juros anuais que podem ultrapassar 100%.
Foi exatamente esse o primeiro pilar para a ascensão do Nubank. A empresa foi fundada no Brasil em 2013 e fez sua primeira transação em 2014. O núcleo de seu modelo de negócios é usar a digitalização para contornar as agências físicas de alto custo e os complexos processos de comprovação de crédito dos bancos tradicionais.
A tecnologia reduziu o custo do serviço para menos de US$ 1
O Nubank não se limitou a "levar para o online" os serviços bancários tradicionais. Ele redefiniu a estrutura de custos dos serviços financeiros. O usuário só precisa baixar o aplicativo, enviar uma foto do documento de identidade e fazer uma selfie para abrir a conta, sem qualquer documento impresso ou agência física. Esse modelo reduziu o custo mensal de atendimento por cliente ativo do Nubank para US$ 0,8, enquanto a receita média mensal por cliente é de US$ 10,7 e o custo de aquisição de cliente é de cerca de US$ 5. Em outras palavras, um cliente comum entra na faixa de lucratividade em poucos meses, e um cliente maduro gera receita mensal de US$ 25.
Essa vantagem de custo não vem simplesmente da redução de despesas, mas de um controle de risco baseado em modelagem de dados em larga escala e automação. Isso permite ao Nubank atender clientes que os bancos tradicionais consideram "não compensadores" — como pequenos comerciantes no Brasil, entregadores de aplicativo no México e artesãos individuais na Colômbia. Para eles, o cartão de crédito ou a conta digital do Nubank costuma ser o primeiro serviço financeiro formal de suas vidas.
Expansão regional: penetração em etapas no Brasil, México e Colômbia
A estratégia de crescimento do Nubank segue um claro degrau regional. No mercado brasileiro, são 90 milhões de clientes, cerca de 43% da população do país, próximo da saturação relativa; mas o tamanho da base não é o fim. O Nubank continua aumentando o valor por cliente ao se expandir para banco corporativo, cartões de crédito premium e produtos de investimento.
O México é atualmente o mercado de crescimento mais rápido. No final de 2024, a base de clientes ultrapassou 10 milhões, um aumento de 91% em relação ao ano anterior, mas isso representa apenas 12% da população adulta do país. Considerando que o México tem maior exclusão financeira e menor densidade de agências bancárias tradicionais, esse mercado ainda tem enorme espaço de penetração. Na Colômbia, o número de clientes chegou a 2,5 milhões, ainda em fase inicial, mas a curva populacional e de adoção de smartphones faz do país o próximo polo potencial de crescimento.Vale notar que o Nubank não depende apenas do Brasil. Na região da América Latina, as diferenças de maturidade da infraestrutura financeira entre os países criam exatamente um modelo de crescimento “em formato de revezamento”: a experiência do Brasil é usada no México, e o caminho do México será replicado na Colômbia e em outros mercados potenciais. Essa capacidade de operação regional é algo que a maioria dos bancos tradicionais e das fintechs de mercado único não possui.
Avançando para o segmento premium e empresarial: de substituto a banco mainstream
Outra mudança importante do Nubank foi a transição de “player marginal” para “banco de espectro completo”. Em 2017, lançou um programa de fidelidade; por volta de 2022, lançou o cartão de crédito Ultraviolet para clientes de alta renda, em parceria com a fintech transfronteiriça Wise, oferecendo baixas taxas de conversão cambial e benefícios globais de viagem. Em 2024, o número de clientes Ultraviolet se aproximou de 700 mil, e o volume de consumo trimestral cresceu 106% em relação ao ano anterior, chegando a US$ 1,8 bilhão. Esse segmento de clientes contribui com margens mais altas, ajudando o Nubank a melhorar sua rentabilidade geral.
Ao mesmo tempo, o Nubank entrou agressivamente no mercado de serviços para pequenas e médias empresas. Em março de 2024, o número de clientes empresariais ultrapassou 4 milhões, um aumento de 50% em relação ao ano anterior, e foi lançado o produto de empréstimo “capital de giro”, com gestão via desktop, autorizações em múltiplos níveis e funcionalidades de faturamento. As micro e pequenas empresas são os capilares da economia latino-americana, mas há muito tempo são ignoradas pelo sistema formal de crédito. Por meio da avaliação de crédito baseada em dados, o Nubank está abrindo canais de financiamento para esse grupo — o que, na prática, oferece soluções para o problema da “informalidade” da economia regional.
Por que o capital continua apostando nas fintechs da América Latina
O desempenho financeiro do Nubank confirma que fintechs podem ser um bom negócio na América Latina. Em 2024, a receita da empresa cresceu 58%, para US$ 11,5 bilhões; o lucro líquido cresceu 85%; e o retorno sobre o patrimônio líquido atingiu 29%, superando inclusive muitos grandes bancos globais. Isso contrasta fortemente com a percepção tradicional de que “fintechs apenas queimam dinheiro”.
O capital também está apostando nessa tendência em nível regional. No primeiro semestre de 2024, as fintechs latino-americanas receberam US$ 1,2 bilhão em investimentos, um aumento de 20% em relação ao ano anterior. Isso significa que o Nubank não é um vencedor solitário, mas o símbolo de um ecossistema em expansão. Da Finnovista, no México, à ABFintechs, no Brasil, investidores locais e globais estão impulsionando juntos a modernização da infraestrutura financeira.
Três significados para o desenvolvimento de longo prazo da América Latina
Em primeiro lugar, as fintechs estão se tornando o pilar central da economia digital latino-americana. Quando centenas de milhões de pessoas obtêm contas bancárias, o comércio eletrônico, os pagamentos digitais, os empréstimos online e os seguros se expandem na sequência. Em segundo lugar, a formalização das pequenas e médias empresas melhorará as estatísticas fiscais e trabalhistas, proporcionando aos governos recursos fiscais mais estáveis e criando um ciclo virtuoso. Em terceiro lugar, o aprofundamento da cooperação financeira transfronteiriça — como a parceria entre Nubank e Wise — pode reduzir os custos de remessas internacionais e de liquidação comercial, permitindo que as empresas latino-americanas se integrem mais profundamente às cadeias globais de suprimentos.Claro, os riscos ainda existem. Os ambientes regulatórios no Brasil e no México continuarão mudando; os bancos tradicionais também estão acelerando a transformação digital, e a concorrência local está se tornando intensa. O Nubank precisa provar que, após entrar em um ciclo de crédito mais complexo, ainda consegue manter a qualidade dos ativos e o ritmo de crescimento. Mas, por enquanto, a empresa já provou com dados uma tese importante: a América Latina não precisa copiar o sistema bancário do Norte; ela pode saltar sobre a infraestrutura financeira da geração antiga e entrar diretamente na era digital.
Nos próximos cinco anos, a mudança estrutural mais digna de atenção na América Latina talvez não seja a oscilação dos preços do cobre ou o volume das exportações de soja, mas sim como os dados financeiros redefinirão "quem tem direito ao capital". Se o modelo do Nubank continuar sendo validado, a América Latina verá emergir de sua economia baseada em exportação de recursos um "ativo digital" igualmente massivo — os dados de comportamento financeiro de centenas de milhões de usuários —, o que remodelará a lógica de investimento em todos os mercados emergentes.
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