Perspectiva econômica
Dos recursos à transição verde: o capital nórdico está redefinindo o mapa de investimentos na América Latina
O capital nórdico acelera sua entrada na América Latina, e o acordo UE-Mercosul torna-se o catalisador. A região passa de exportadora de recursos a um polo atrativo para investimentos em transição verde.
Dos recursos à transição verde: o capital nórdico está redefinindo o mapa de investimentos na América Latina
Em janeiro de 2026, a União Europeia e o Mercosul assinaram formalmente o acordo de parceria, um marco que levou mais de duas décadas de negociações, coincidindo com a aceleração dos investidores nórdicos na América Latina. O capital da Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia está migrando da extração tradicional de recursos para áreas de alto valor agregado, como energia renovável, hidrogênio verde e infraestrutura digital. Isso é tanto resultado da busca por lucro quanto um reflexo da nova posição da América Latina na reestruturação das cadeias de suprimentos globais.
O ajuste perfeito entre oferta e demanda: por que o capital nórdico escolheu a América Latina
Os países nórdicos acumulam décadas de experiência em energia limpa, manufatura avançada e inovação sustentável, enquanto a América Latina possui as reservas mais abundantes do mundo de lítio, cobre e terras raras, além de enorme potencial eólico e solar. Mais importante ainda, vários governos latino-americanos estão incorporando a ESG (Ambiental, Social e Governança) ao núcleo de suas políticas, lançando planos de descarbonização e modernização de infraestrutura — exatamente o que requer parceiros com experiência técnica e de gestão.
Os projetos eólicos e solares da Statkraft no Brasil e a exploração conjunta de hidrogênio verde e amônia pela Aker Horizons e Statkraft são exemplos típicos da combinação capital-recursos-tecnologia. Esses investimentos mostram que o capital nórdico não está mais apenas perseguindo mão de obra barata, mas sim profundamente integrado ao processo de transição verde local.
Catalisador institucional: o acordo UE-Mercosul abre novos canais
O acordo entre a UE e o Mercosul (que abrange Dinamarca, Suécia, Finlândia e outros estados-membros da UE) alcançou um acordo político em 2024 e foi formalmente assinado em 2026, fornecendo garantias institucionais para o corredor de investimentos nórdico-latino-americano. A redução de tarifas, a ampliação do acesso ao mercado e as cláusulas de facilitação de investimentos reduziram significativamente os custos de atrito para os fluxos bilaterais de capital. Somando-se à volatilidade das relações geopolíticas entre os EUA e a Europa, a necessidade de diversificação da alocação de capital europeu se fortaleceu ainda mais, tornando a América Latina um porto seguro natural.
Mapa de riscos: o outro lado da oportunidade
Apesar das perspectivas promissoras, os riscos regulatórios enfrentados pelos investidores nórdicos na América Latina não podem ser ignorados. O relatório aponta que certas jurisdições implementaram mudanças políticas e ações regulatórias que podem afetar a estabilidade de concessões de longo prazo, estruturas tarifárias, prazos de licenciamento e cláusulas de proteção contratual. Esses riscos frequentemente se entrelaçam com ciclos eleitorais, volatilidade dos preços de commodities e pressões geopolíticas.
Para isso, a White & Case recomenda no relatório que os investidores incluam cláusulas de estabilização nos contratos, proteção contra mudanças legislativas, direitos de saída antecipada e escolham cuidadosamente a lei aplicável e o local de arbitragem. Utilizar as garantias oferecidas pelos Acordos Internacionais de Investimento (IIAs), como "tratamento justo e equitativo", "proteção e segurança" e "proteção contra expropriação ilegal", além de recorrer à resolução de disputas investidor-Estado (ISDS) por meio de mecanismos como o ICSID, são ferramentas essenciais para a preservação de valor.Vale notar que a cobertura de tratados entre o Norte da Europa e a América Latina é desigual. Por exemplo, não há mecanismo ISDS em vigor entre a Noruega e a Argentina, mas, por meio de uma estruturação adequada, como holdings intermediárias em países com acordos de tratados, como Holanda ou Chile, ainda é possível suprir essa lacuna jurídica. Isso exige que consultores jurídicos especializados façam o desenho caso a caso.
O que isso significa para a região latino-americana?
A entrada de capital nórdico não apenas complementa a oferta de capital. Mais importante, ela traz a introdução de tecnologia e padrões. Os países latino-americanos deixam de ser meros exportadores de matérias-primas na transição energética e passam a participar dos elos intermediários e iniciais da cadeia industrial verde — por exemplo, produzindo hidrogênio verde, processando sais de lítio e fabricando equipamentos de energia eólica. Isso fortalece a posição estratégica da América Latina no comércio global e atrai mais atenção de capital da Europa e da Ásia.
Ao mesmo tempo, essa onda de investimentos também está pressionando os países latino-americanos a melhorar o ambiente de governança. Para atrair capital de longo prazo, os países precisam oferecer um arcabouço jurídico mais estável, processos de licenciamento mais transparentes e políticas mais previsíveis. Isso impulsionará reformas estruturais na região e deverá formar um ciclo virtuoso de "capital de qualidade — atualização institucional — mais capital".
Observações principais
1. O acordo UE-Mercosul institucionaliza o corredor de investimentos nórdico-latino-americano, reduzindo os riscos políticos e econômicos do fluxo de capital de longo prazo. 2. O fluxo de capital nórdico está se deslocando de recursos primários para um complexo de tecnologia verde, elevando o valor agregado da América Latina. 3. A cobertura dos tratados de ISDS é desigual; investidores precisam obter proteção por meio de arquitetura societária, e o risco jurídico torna-se uma variável central nas decisões de investimento. 4. A incerteza política persiste em vários países latino-americanos, mas a rede de tratados internacionais força uma convergência regulatória. 5. A posição da América Latina na cadeia global de suprimentos verdes está mudando de "fornecedora" para "parceira".
Três grandes mudanças estruturais nos próximos cinco anos
Olhando para o período de 2026 a 2035, a América Latina deverá apresentar as seguintes transformações:
Primeiro, consolidação da posição de exportador de energia verde. Com seus recursos renováveis, a América Latina se tornará a principal fonte global de hidrogênio verde, amônia verde e minerais de baixo carbono, e o Norte da Europa — e até mesmo toda a Europa — estará profundamente vinculado a essa cadeia de suprimentos.
Segundo, extensão da cadeia de valor manufatureira regional. Da extração de recursos ao processamento de materiais e à fabricação de equipamentos, a América Latina absorverá etapas de maior valor agregado, e os investimentos da China e dos EUA também competirão ainda mais.
Terceiro, convergência do ambiente jurídico e regulatório. Com o aperfeiçoamento da rede de tratados internacionais de investimento e a popularização dos mecanismos de solução de controvérsias, as regras de investimento dos países latino-americanos se aproximarão dos padrões internacionais, e o processo de integração regional (como o acordo entre o Mercosul e a UE) atua como força motriz externa.
É claro que os riscos ainda existem. Ciclos populistas, volatilidade dos preços das commodities e fraturas geopolíticas podem interromper esse processo. Mas, de qualquer forma, o capital nórdico já depositou seu voto de confiança na América Latina — um sinal que vale a pena os investidores globais acompanharem.
Bússola de fontes · latamreport
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